100nada

How many ships sail in the forest *

* foi uma frase que me foi oferecida sobre o meu post Quantum coisas, de uma das pessoas que conseguem ler o que eu escrevo. Achei que dava um magnífico título, é uma frase linda de uma música irlandesa com séculos em cima (fui googlar). Não sigo o poema, sigo só a frase, porque é uma inspiração por si só e agradeço, uma vez mais. Em interpretação e escrita selvagem (em itálico, a expressão é de outra pessoa que também sempre conseguiu ler o que eu escrevo).

Tenho os pés plantados em solo sempre desconhecido, tantas vezes mudei de vida, umas noutros sítios, outras só em mim e talvez por isso tenha a cabeça mergulhada debaixo de água. Todas as pessoas têm os pés em qualquer lado, algumas acima do chão, outras como os meus, sempre cravados à terra, seja ela o que for e se isso me causa alguma imobilidade ou dificuldade de movimento, também é certo que entendo muito bem tudo o que vive neste mundo de árvores integrais, embora estas estejam quase submersas.
[durante uns anos vivi com um pé tão longe do outro que só me conseguia plantar no segundo em que voltava a ver o mar]
No fundo (quase literalmente) há pessoas que só se sentem reais quando estão imersas e só existe
nem sei bem o quê, diria falta de ar se não soasse tão estranho
mas pensando no cordão de raízes nunca é de facto assim tão perigoso
embora seja uma emoção forte, sem sombra de dúvida

E se há pessoas que são quase árvores submersas, não há nenhuma razão, nenhuma, para que não se transformem em barcos
basta terem coragem para cortar amarras.

as many as the number of brave trees.


Quantum coisas

Há uma cor brilhante de mar nocturno que não é azul escuro nem cinzento mas é fundo. É uma cor de mar que tem tanto céu por cima, quase parece ter o mesmo peso em baixo, mesmo que a areia esteja mesmo ali. É o gato na caixa, a árvore a cair na floresta, este mar que se disfarça em rio com hipopótamos a boiar de boca aberta, a fazer de conta que estão distraídos e apanhar elefantes voadores como se apanham moscas. Só assim, os outros tolos a voar em círculos sob a lua, sem perceber que a caixa se abriu e o gato está vivo e morto de fome.
(já as árvores, umas não caem mas isso é apenas a realidade a intrometer-se no pedaço deste meu mar e a dar-me cabo do texto)


Recados có(s)micos

Tudo pode ser uma coisa qualquer. Há quem insista em ler os sinais que pensa que o universo envia, em ondas ultra codificadas e sintonizadas naquela precisa frequência. E, se calhar, até acontece, mas duvido muito que sejam sinais esotéricos, parece-me mais provável que sejam do tipo, dói-me aqui neste canto da nebulosa X-lá-Muito-Longe, importam-se só que vá ali num pulinho explodir uma supernova? Obrigado e desculpem a maçada e não a linha da mão, a folha de chá, o dado que se equilibra na aresta. O universo está-se nas tintas para essas merdas, valem o mesmo que o deus do fogo e do trovão, somos nós a tentar encontrar um sentido no caos, como se fosse possível mais do que, quando muito, pairar em suspensão e dizer ao universo, vai lá tratar das tuas grandezas cósmicas e deixa-me agora aqui quieta durante um bocado, que tenho mais que fazer que ouvir toda essa estática.


Pondo-me fina

Um gajo (eu, neste caso) tem sempre escolhas. Pode escolher ignorar a puta da árvore (vide post abaixo) ou pode roer o facto de ali estar, o que é, convenhamos, totalmente cretino. Pode roer um bocadinho q.b., vá, até pode mandar um drone mental ou dois, só mais para ver que não acontece nada, mas depois escusa de ficar ali
– a puta da árvore
– foda-se mais a puta da árvore
– foda-se mais a puta da árvore de merda

(acho que me fiz entender)
(os meus posts não são para meninos, temos pena)
(fechando este parênteses)

Porque não adianta um caralho a ponta de um corno e só chateia (a mim e aos outros).

[a árvore também chateia mas não fala]


Maçadas que só a mim interessam

(a explodir uma árvore com o poder da mente)

Não sei para que raio serve a porra do cérebro que supostamente funciona a muito menos que meio do potencial gás que lá está, em estado latente, dormente ou outro qualquer estado de mente, se não consegue arrancar uns estúpidos ramos da minha frente, por mais que me concentre

(esta coisa dos entes está a deixar-me doente enervada)

Um computador topo de gama debaixo do alisamento, quase todo desligado, um total desperdício de células só porque as ligações não funcionam como poderiam, aborrece muito ter que esperar uns milhares de anos para nos transformarmos em super cérebros que rebentam árvores só a olhar para elas com ódio e se calhar nessa altura já nem é preciso porque também temos super visão raio qualquer coisa, que torna transparentes as coisas que nos tapam a vista.
E o pequeno detalhe de não durar até aos milhares de anos mas isso uma pessoa nunca sabe.

Há uma parte de mim que se chateia com
– árvores à frente
– cérebros com potencial desperdiçado

temo que mais depressa se resolva a parte dos cérebros que me cortem a puta da árvore.



Equilibrismo

Até a mim chateia escrever com tanta imagem, paralelo, tangente, em linhas que, não sendo, parecem ziguezagues, em labirintos de palavras onde (até eu) acabo por me perder (embora dessa parte goste) mas depois, enquanto lavo a loiça do jantar, por uma específica qualquer razão, apanho-me com uma sequência quase imediata de pensamento ainda vago -> ideia -> imagem -> imagem que parte da primeira imagem. E é sempre essa mais lateral, a que segue noutra direcção, que eu persigo. Essa é a que me leva ao labirinto onde ando às voltas (a primeira imagem é tão clara que não preciso de olhar senão uma vez) à procura de um desvio/ideia nova/um rasgo de clarividência. Se eu fosse uma arrogante de merda diria que é o processo de raciocínio outside the box, assim, com a zeinalbavice e tudo mas isso não é aqui ou agora, sob pena de me desviar tanto que me esqueça do que aqui me interessa e que é

(parando agora, traduzindo a imagem, o que nunca é fácil)

Aqueles tipos muito radicais que esticam elásticos entre dois picos? E que depois passam de um para o outro, um número de circo levado ao limite, sem rede, é mais ou menos isso. E isto causa-me um problema (literário também, na medida em que, encravando aqui, fica o texto também com ar de a meio) já que desvios são poucos, ou é a direito sem olhar para baixo ou então

estando cair fora de questão

se uma pessoa cortar o elástico e se se enrolar nele e se se balançar muito, é bem capaz de conseguir chegar ao outro lado.


Em ponta dos dedos

Mergulho as pontas dos dedos no cabelo e no céu passam nuvens que têm sempre forma de qualquer coisa que pode ser o que se quiser que seja, até mesmo apenas nuvens. Não é preciso inventar nada, não é preciso esticar uma nuvem para parecer outra coisa, pode perfeitamente ser o que é.
Ou sou eu, de pontas de dedos ancorados no real, que não preciso de mais nada.


Trovoadas

Não sei porque é que gosto tanto mas lembro-me dos primeiros quandos.
Nós tínhamos uma casa na ilha. Era nossa, de todos, quando somos pequenos as nossas casas são nossas mesmo e
(não vou escrever sobre a casa agora, mas hei-de, porque era uma casa e uma rotunda e areia ali mesmo e mesas dentro de água e a baía, quase na ponta da ilha e é uma memória – nossa – importante)
é nesse quando e nesse onde que me lembro das (primeiras?) trovoadas, as mais bonitas da minha vida, no meio de um calor tremendo, da humidade que escorria por nós (não me lembro de me incomodar com isso, não devia ter idade para esses detalhes interferirem com o meu mundo), as trovoadas sobre a baía. Tudo coberto de relâmpagos, uma visão brutal e uma sensação incrível de – na altura eu não sabia o que era – natureza cruamente pura. Passavam muito depressa, depressa demais, mas se calhar (penso eu agora) é assim que deve ser uma trovoada perfeita, uma explosão de raios, trovões que se ouvem até aos ossos e depois passar de repente e deixar-nos exaustos, ainda com tudo a rodar na memória imediata.
Uma trovoada perfeita é essa: a que continua dentro. Às vezes o resto da vida, como as minhas.