100nada

Quantum coisas

Há uma cor brilhante de mar nocturno que não é azul escuro nem cinzento mas é fundo. É uma cor de mar que tem tanto céu por cima, quase parece ter o mesmo peso em baixo, mesmo que a areia esteja mesmo ali. É o gato na caixa, a árvore a cair na floresta, este mar que se disfarça em rio com hipopótamos a boiar de boca aberta, a fazer de conta que estão distraídos e apanhar elefantes voadores como se apanham moscas. Só assim, os outros tolos a voar em círculos sob a lua, sem perceber que a caixa se abriu e o gato está vivo e morto de fome.
(já as árvores, umas não caem mas isso é apenas a realidade a intrometer-se no pedaço deste meu mar e a dar-me cabo do texto)


Recados có(s)micos

Tudo pode ser uma coisa qualquer. Há quem insista em ler os sinais que pensa que o universo envia, em ondas ultra codificadas e sintonizadas naquela precisa frequência. E, se calhar, até acontece, mas duvido muito que sejam sinais esotéricos, parece-me mais provável que sejam do tipo, dói-me aqui neste canto da nebulosa X-lá-Muito-Longe, importam-se só que vá ali num pulinho explodir uma supernova? Obrigado e desculpem a maçada e não a linha da mão, a folha de chá, o dado que se equilibra na aresta. O universo está-se nas tintas para essas merdas, valem o mesmo que o deus do fogo e do trovão, somos nós a tentar encontrar um sentido no caos, como se fosse possível mais do que, quando muito, pairar em suspensão e dizer ao universo, vai lá tratar das tuas grandezas cósmicas e deixa-me agora aqui quieta durante um bocado, que tenho mais que fazer que ouvir toda essa estática.


Pondo-me fina

Um gajo (eu, neste caso) tem sempre escolhas. Pode escolher ignorar a puta da árvore (vide post abaixo) ou pode roer o facto de ali estar, o que é, convenhamos, totalmente cretino. Pode roer um bocadinho q.b., vá, até pode mandar um drone mental ou dois, só mais para ver que não acontece nada, mas depois escusa de ficar ali
– a puta da árvore
– foda-se mais a puta da árvore
– foda-se mais a puta da árvore de merda

(acho que me fiz entender)
(os meus posts não são para meninos, temos pena)
(fechando este parênteses)

Porque não adianta um caralho a ponta de um corno e só chateia (a mim e aos outros).

[a árvore também chateia mas não fala]


Maçadas que só a mim interessam

(a explodir uma árvore com o poder da mente)

Não sei para que raio serve a porra do cérebro que supostamente funciona a muito menos que meio do potencial gás que lá está, em estado latente, dormente ou outro qualquer estado de mente, se não consegue arrancar uns estúpidos ramos da minha frente, por mais que me concentre

(esta coisa dos entes está a deixar-me doente enervada)

Um computador topo de gama debaixo do alisamento, quase todo desligado, um total desperdício de células só porque as ligações não funcionam como poderiam, aborrece muito ter que esperar uns milhares de anos para nos transformarmos em super cérebros que rebentam árvores só a olhar para elas com ódio e se calhar nessa altura já nem é preciso porque também temos super visão raio qualquer coisa, que torna transparentes as coisas que nos tapam a vista.
E o pequeno detalhe de não durar até aos milhares de anos mas isso uma pessoa nunca sabe.

Há uma parte de mim que se chateia com
– árvores à frente
– cérebros com potencial desperdiçado

temo que mais depressa se resolva a parte dos cérebros que me cortem a puta da árvore.



Equilibrismo

Até a mim chateia escrever com tanta imagem, paralelo, tangente, em linhas que, não sendo, parecem ziguezagues, em labirintos de palavras onde (até eu) acabo por me perder (embora dessa parte goste) mas depois, enquanto lavo a loiça do jantar, por uma específica qualquer razão, apanho-me com uma sequência quase imediata de pensamento ainda vago -> ideia -> imagem -> imagem que parte da primeira imagem. E é sempre essa mais lateral, a que segue noutra direcção, que eu persigo. Essa é a que me leva ao labirinto onde ando às voltas (a primeira imagem é tão clara que não preciso de olhar senão uma vez) à procura de um desvio/ideia nova/um rasgo de clarividência. Se eu fosse uma arrogante de merda diria que é o processo de raciocínio outside the box, assim, com a zeinalbavice e tudo mas isso não é aqui ou agora, sob pena de me desviar tanto que me esqueça do que aqui me interessa e que é

(parando agora, traduzindo a imagem, o que nunca é fácil)

Aqueles tipos muito radicais que esticam elásticos entre dois picos? E que depois passam de um para o outro, um número de circo levado ao limite, sem rede, é mais ou menos isso. E isto causa-me um problema (literário também, na medida em que, encravando aqui, fica o texto também com ar de a meio) já que desvios são poucos, ou é a direito sem olhar para baixo ou então

estando cair fora de questão

se uma pessoa cortar o elástico e se se enrolar nele e se se balançar muito, é bem capaz de conseguir chegar ao outro lado.


Em ponta dos dedos

Mergulho as pontas dos dedos no cabelo e no céu passam nuvens que têm sempre forma de qualquer coisa que pode ser o que se quiser que seja, até mesmo apenas nuvens. Não é preciso inventar nada, não é preciso esticar uma nuvem para parecer outra coisa, pode perfeitamente ser o que é.
Ou sou eu, de pontas de dedos ancorados no real, que não preciso de mais nada.


Trovoadas

Não sei porque é que gosto tanto mas lembro-me dos primeiros quandos.
Nós tínhamos uma casa na ilha. Era nossa, de todos, quando somos pequenos as nossas casas são nossas mesmo e
(não vou escrever sobre a casa agora, mas hei-de, porque era uma casa e uma rotunda e areia ali mesmo e mesas dentro de água e a baía, quase na ponta da ilha e é uma memória – nossa – importante)
é nesse quando e nesse onde que me lembro das (primeiras?) trovoadas, as mais bonitas da minha vida, no meio de um calor tremendo, da humidade que escorria por nós (não me lembro de me incomodar com isso, não devia ter idade para esses detalhes interferirem com o meu mundo), as trovoadas sobre a baía. Tudo coberto de relâmpagos, uma visão brutal e uma sensação incrível de – na altura eu não sabia o que era – natureza cruamente pura. Passavam muito depressa, depressa demais, mas se calhar (penso eu agora) é assim que deve ser uma trovoada perfeita, uma explosão de raios, trovões que se ouvem até aos ossos e depois passar de repente e deixar-nos exaustos, ainda com tudo a rodar na memória imediata.
Uma trovoada perfeita é essa: a que continua dentro. Às vezes o resto da vida, como as minhas.


Verão full loaded, press continue

Já é verão oficial, de data marcada no dia mais comprido do ano e que me passa ao lado. Ou talvez não, o verão também é de dias de nadas em roupão, gelados, cafés e preguiça pura, em estágio (usando a nomenclatura da actualidade) de início de época.
Lembro-me de um dia de verão há muito tempo em que ouvi, logo ali no fim de Junho, “está quase a acabar o verão”. Aquela frase bateu-me, o copo meio vazio, é assim que uma pessoa se define em meia dúzia de palavras e eu, ainda miúda, a dar troco, claro que não estava nada a acabar, faltava tanto tempo, sem perceber que há pessoas que lamentam o fim das coisas boas quando elas começam, as que acordam ao domingo a pensar que no dia seguinte é segunda-feira, as que nem tentam porque vai dar merda, as que não arriscam porque já perderam. E realmente perdem, sentadas em cima da vida para que não mexa muito, não faça ondas, se mantenha ali, entre o dia em que começa o verão e o dia seguinte em que está quase a acabar, numa sucessão de domingos de neura em eterna antecipação de segundas feiras de merda.
Isto tudo para chegar ao fim do primeiro dia de verão, o meu primeiro dia de verão oficial e saber que isto dos dias fixos no calendário é só mesmo isso, uma data convencionada e o meu verão começa
(quando passo a usar sandálias)
(ou a beber gin tónico)
(ou a dormir só de lençol)
(ou a ver uma lua enorme amarela ao fim da tarde)
quando eu quero.


Debaixo de água

Há frases que passam no meio de outras, assim meio distraidamente, absolutamente normais no contexto, nada que seja dito com grande ênfase

“Há palavras que nos beijam” é a frase que abre um poema de Alexandre O’Neill, o meu favorito deste meu favorito poeta. Foi a frase que definiu este blog durante um tempo (anos?) e até a escrevia em mim, com tinta permanente, se acaso alguma vez estivesse para aí virada

e é isso, “há palavras que nos beijam” e também há frases que surgem tão naturalmente, tão inseridas no resto que

(não são um chapadão que nos atira contra uma parede, não são dessas, são das outras, das que nos arrancam o ar todo com uma almofada de penas)

e nos deixam com um sorriso imenso por dentro.