100nada


As férias dos outros são um inferno

O pré férias é do caralho. Não há paninhos quentes nem palavras meias, é uma grandessissima merda para não dizer pior (até porque já disse). Sim, eu sei, quando toda a gente voltar de férias, ainda vou eu, mas agora é a parte toda a gente vai de férias e eu não e primeiro tenho que engolir esta parte, não me consola nada a outra, que só calha daqui a semanas e semanas. Estou com sindroma pré férias que consiste, basicamente, em odiar quem vai de férias antes de mim. É verdade que podia marcar para mais cedo, mas quando é altura de marcar férias, como ninguém vai tão cedo, uma pessoa pensa ah vou quando voltar toda a gente, isso é que é fixe, não quero nada estar a trabalhar e já ter tido férias e ver outras pessoas a ir e pimba, marca lá para muito longe. Quando a coisa fica mais perto e, principalmente quando a coisa dos outros se aproxima é que se cai em si e se pensa tu és mesmo burra chapada então não pensaste o mesmo nos anos anteriores?! Ah sim, pensei mas depois esqueci-me, quando finalmente fui de férias depois de toda a gente e achei que isso é que era a escolha certa.
E deve ser, depois logo direi, mas agora só espero que nas férias dos outros chova o tempo todo!


No semáforo quero lá saber de que cor é!

E não quero saber porque está um gajo giro no carro atrás de mim. O carro também é giro. Parece um facto normal mas digam-me lá, minhas amigas, quantas vezes é que o carro ao lado (ou atrás) é um carro giro com um tipo giro ao volante? A probabilidade de um carro fixe ser guiado por um qualquer estafermo entretido com o interior de um ouvido ou o gajo giro passar de bicicleta e só se conseguir tirar medidas às pernas é muitíssimo mais alta ou então sou eu que ando pelas ruas erradas (nesse caso, a caixa de comentos está aí para me gêpêéssarem devidamente). De qualquer forma estou a ver o gajo giro no carro giro a acender um cigarro pelo espelho retrovisor, enquanto acendo o meu, o semáforo logo se verá e não levo uma apitadela, o que também me parece bastante simpático. Mas enfim, não se pode ali ficar o dia todo e lá sigo e o tipo giro atrás até ao semáforo seguinte onde se mete ao lado, o que dá duas coisas: mais jeito para ver melhor e mais nas vistas, mas o canto do olho de uma gaja como nós consegue virar 360 graus sem mexer uma pestana quando a coisa parece interessante. Parece e é e do lado do carro giro também parece qualquer coisa do mesmo género, que inclui um sorriso lindo.
Por momentos suspeito que o tipo giro está com a ideia de se picar e a acelera que todas nós temos dentro mesmo que não confessemos, imagina uma corrida à filme (mas em câmara lenta, que é hora de ponta) pelas avenidas de Lisboa, mas o semáforo vira verde e o meu híbrido ainda está a pensar se arranca ou nem por isso enquanto o carro giro já desapareceu na esquina.
Oh, dirão as leitoras, mas assim não tem graça nenhuma. Nada mais errado. O que tem graça é o momento instantâneo. O resto seria uma história e o tempo entre semáforos não dá para tal.


Me, myself e a chaga da alterega

– olha lá!
– diz.
– se eu fosse leitor do teu blog, sabes o que é que eu dizia?
– sim?
– que já não se aguenta com a puta da escrita hermética!
– mas nem é. Eu até sou muito transparente e
– cala-te. A sério. Cala-te. Não há paciência!
– mas eu
– diz lá a verdade: quando depois relês, sabes sobre o que é que estavas a escrever?
– às vezes, sim, quer dizer, tenho uma ideia…
– e depois vens com a conversa dos pedaços confusos do mapa!
– não era isso!
– pá. Vai por mim. Escreve um post sobre sapatos. Unhas. Qualquer merda.
– não me apetece.
– isso! Agora amua!
– eu nunca amuo! não me apetece!
– então faz o que quiseres, mas depois não te ponhas ah e o código e o caralho
– …
– sabes o que te digo? se não tivesses uma alterega a puxar-te as orelhas de vez em quando, a esta hora o teu blog era tudo em hieróglifos…


O meu QR code

Até pode muito bem ser que muito de mim seja sob um formato desenhado em quadradinhos pretos e brancos como se de um jogo de labirinto se tratasse, as peças a irem trocando de sítio até se conseguir encontrar a saída. Pode muito bem ser e eu sem dar conta, de mapa na mão, afinal fui eu quem o desenhou, mal seria se me perdesse (embora admita bocados meio confusos). Esqueço-me que, tal como tropeço e me perco nos códigos dos outros, o meu, tão quase claro para mim, é a mesma coisa: sem mapas andamos todos às aranhas.

Até pode muito bem ser assim e mais: sabendo que é assim, seria muito mais simples mostrar o nosso mapa em vez de atirar para o ar umas coisas vagas, porque achamos que não temos muito jeito para desenho e se calhar o mapa não é uma maravilhosa carta com iluminuras ou não queremos mostrar o clássico pedaço “here be dragons” ou os quadrados estão meio tortos ou qualquer coisa estúpida do género. É idiota, mas – lá está – é também um dos quadradinhos mal desenhados no mapa do código.

Mas, sendo tudo isto deste modo, mesmo assim não consigo deixar de pensar que há mais para além do código, que dentro (fora?) do mapa há outros desenhos invisíveis. Chame-se-lhe o conceito do código, a alma do mapa, aquilo que não se traduz, para o qual não existe conversor. Que só se adivinha em certos momentos, que só se vislumbra pelo canto do olho em certos nanosegundos, mas que não tem hipótese de filtro. Porque é a máquina mesmo. Com os fios à vista.




How many ships sail in the forest *

* foi uma frase que me foi oferecida sobre o meu post Quantum coisas, de uma das pessoas que conseguem ler o que eu escrevo. Achei que dava um magnífico título, é uma frase linda de uma música irlandesa com séculos em cima (fui googlar). Não sigo o poema, sigo só a frase, porque é uma inspiração por si só e agradeço, uma vez mais. Em interpretação e escrita selvagem (em itálico, a expressão é de outra pessoa que também sempre conseguiu ler o que eu escrevo).

Tenho os pés plantados em solo sempre desconhecido, tantas vezes mudei de vida, umas noutros sítios, outras só em mim e talvez por isso tenha a cabeça mergulhada debaixo de água. Todas as pessoas têm os pés em qualquer lado, algumas acima do chão, outras como os meus, sempre cravados à terra, seja ela o que for e se isso me causa alguma imobilidade ou dificuldade de movimento, também é certo que entendo muito bem tudo o que vive neste mundo de árvores integrais, embora estas estejam quase submersas.
[durante uns anos vivi com um pé tão longe do outro que só me conseguia plantar no segundo em que voltava a ver o mar]
No fundo (quase literalmente) há pessoas que só se sentem reais quando estão imersas e só existe
nem sei bem o quê, diria falta de ar se não soasse tão estranho
mas pensando no cordão de raízes nunca é de facto assim tão perigoso
embora seja uma emoção forte, sem sombra de dúvida

E se há pessoas que são quase árvores submersas, não há nenhuma razão, nenhuma, para que não se transformem em barcos
basta terem coragem para cortar amarras.

as many as the number of brave trees.


Quantum coisas

Há uma cor brilhante de mar nocturno que não é azul escuro nem cinzento mas é fundo. É uma cor de mar que tem tanto céu por cima, quase parece ter o mesmo peso em baixo, mesmo que a areia esteja mesmo ali. É o gato na caixa, a árvore a cair na floresta, este mar que se disfarça em rio com hipopótamos a boiar de boca aberta, a fazer de conta que estão distraídos e apanhar elefantes voadores como se apanham moscas. Só assim, os outros tolos a voar em círculos sob a lua, sem perceber que a caixa se abriu e o gato está vivo e morto de fome.
(já as árvores, umas não caem mas isso é apenas a realidade a intrometer-se no pedaço deste meu mar e a dar-me cabo do texto)