Exmo Sr, lamento imenso o estado em que terá ficado o para-choques do seu carro. Percebe-se que era estimado, para-choques e restante carroceria, o que denota um proprietário cuidadoso. Por esse mesmo motivo, causa-me enorme surpresa que vexa., aparentando ser tão cioso do seu automóvel, tenha apresentado uma enorme falta de perspicácia no que diz respeito ao restante parque automóvel em geral e em concreto, àquelas viaturas que estão mais perto: aí a uns vinte centímetros ou assim. Vexa. deveria primeiro verificar, antes de estacionar colado ao carro da frente, se o dito aparentava ser propriedade de pessoa com cuidados semelhantes ou se, pelo contrário, teria uma dona que não ligaria muito a todos os cento e cinquenta riscos e pequenas mossas e até algumas maiores, mormente uma provocada por camião TIR cujo condutor ia a dormir. Não. Vexa. demonstrou, de facto, uma enorme capacidade para enfiar o Rossio na Betesga, quando estacionou mas, infelizmente, estacionou colado ao meu carro. Daí que, ainda lá estando o seu lindo carroço quando quis eu tirar o meu, tive que recorrer ao estratagema dar um toque no da frente, dar um toque no de trás. O da frente levou menos toques porque estava a uma distância mais prudente, o seu, ali pespegado no meu para-choques, levou mais pancada. Ainda por cima, a lei da gravidade também não ajudou mesmo nada. Espero que tenha aprendido a lição de nunca mais estacionar, a subir, colado a um carro cuja lata não está já como veio de origem; ou então, o mais provável, terá sido ter dito muitos palavrões e não ter aprendido nada. É por isso que as pessoas não evoluem.
Se eu encontrar mais algum bocado do seu para-choques, amanhã entrego no café mais próximo.
Eu vinha aqui agarrar no blog, arrancá-lo lá onde o deixei o ano passado e atirá-lo ali para os lados do final de Março, por via das dúvidas, para ter mais uma folga a mantê-lo parado, mas depois mostraram-me este magnífico video e aqui fica, à laia de bom ano ou coisa parecida.
E mais a tralha toda, as bolas, as fitas, as luzes, os bonecos. E presentes e embrulhos e fita cola e tesoura e laços e presépio e estrela e anjo e doces (não fui eu que fiz e também não fiz bolachas). Mas canto aos berros no carro todos os jingóbels, não me aborreço com as pessoas na rua, farto-me de refilar com todas as merdas não relacionadas com Natal (olarilolés natalícios não significam mudança de personalidade) e rio-me imenso também, todos os dias, a todas as horas. Tenho tempo e espaço para o Natal, tenho tempo e espaço para montar a tenda, tenho tempo e espaço para refilar, tenho tempo e espaço para me rir às gargalhadas com as pessoas de quem gosto.
Se balanço há a fazer, então é esse, o do tempo e do espaço para as pessoas de quem gosto. Foi um ano de Natal cheio de coisas boas. É isso que vos desejo, família, amigos, leitores: que o vosso Natal seja muito feliz e que o próximo ano seja um ano de Natal. Porque todas as coisas boas da vida não têm preço, não custam dinheiro e basta começar (ou recomeçar) a rir, às gargalhadas grandes, enormes, sentidas, as que nos saltam do fundo da alma, para percebermos que esse Natal que dura um ano são os dias felizes com as nossas pessoas.
Chego à conclusão que o mais grave problema deste país não é a crise, o endividamento, a falta de iluminações de natal ou os cocós de cão nos passeios. Não. O problema mais grave deste país é uma questão de semântica. Ou mesmo a pura ignorância sobre o significado das palavras. O nosso ex-PM, agora emigrado (exacto…) considera que a palavra “dívida” significa “coisa que não se paga”, e esse pequeno erro de falta de dicionários em casa, deu uma grande ajuda à situação onde estamos hoje, porque, infelizmente, os credores discordam da anterior interpretação institucional portuguesa.
Temos agora um novo PM, que aparentemente sofre do mesmo problema. Não sei se é do cargo, da cadeira, da cantina lá de São Bento, mas só se pode concluir que é uma falha altamente contagiosa. E então, o novo PM confunde a palavra “transparência” (palavra de ordem da coisada toda, desde a pré-campanha até ao divulgar da cor das cuecas dos assessores adjuntos dos terceiros secretários dos gabinetes que nem sabíamos que existiam) com “posso dizer o que me vai na alma aqui em confissão aberta ao povão todo”. É uma atitude louvável, mas nem Cristo – já que estamos no Natal – conseguiu ser tão inocente: haja em vista que não disse tudo o que sabia nem sequer aos apóstolos, não fosse algum pasquim da época apanhar a cacha num corredor e espetar em primeira página “Judas vai vender o chefe por trinta moedas, citou fonte anónima ao nosso jornal”. Um PM, que nem sequer tem mandato divino, se bem que demonstre uma grande coragem (ou tolice) em dizer tudo o que lhe passa pela cabeça, não deve confundir “transparência” com “iadaiadice vária de toda a ordem”. Eu, que não sou ninguém, posso perfeitamente dizer “ah não gostas? olha, a porta é ali!” mas convenhamos que ao timoneiro do país mandar a rapaziada remar para outras águas, é um risco. Para o timoneiro, obviamente, mas o barco também não fica em melhor estado, até porque quando se começa a ver sair os ratos, ainda mais por sugestão do capitão, o resto da malta, a tocar violino no convés, pensa: alto, esta porra se calhar está a afundar e ninguém avisa, melhor ir nadando enquanto se avista terra.
Não tenho a certeza absoluta, mas desconfio com muita convicção que não é assim que os grandes estadistas inspiram os países a andar para a frente. Não estou nada a ver quem chefia os alemães, os ingleses, os franceses, caneco, não estou nada a ver sequer um grego a dizer “andor pá!” Até porque não joga a bota com a perdigota: então não há um ministro da economia que vê luzes no final do ano que vem, grandes néons de retoma, crescimento, riqueza e glória já ali ao virar de 2012? Mas o PM não sugeriu ir passar férias ao Brasil, pois não? Emigrar é assunto de longo prazo, vá, médio quando muito.
E são estas coisas que me aborrecem: a inexistência, no vocabulário político deste país, de palavras como “coerência”.
Por várias razões, já não ia há uns anos mas este ano recomecei. Recomecei muita coisa -todas boas – e uma das importantes era esta, regressar ao natal dos amigos. Continuo a dizer “os amigos de há 20 anos” mas feitas bem as contas, já são “os amigos de há 30 anos”, alguns deles. Outros menos tempo, outros nem tinha conhecido ainda, outros não estavam, outros, tal como eu noutros anos, faltaram.
Comemos e rimos e bebemos e demos abraços e conversámos e está tudo na mesma e é como se tivéssemos jantado na véspera, já nos conhecemos tão bem, mesmo aos que conhecemos menos bem. Trinta anos é uma vida, vinte também são muitos, é muita memória, muita história. Quando estamos, contamos as que os outros nunca ouviram, ou ouviram cinquenta vezes e rimo-nos sempre imenso. E as pessoas das histórias, nas memórias de todos, naquela memória colectiva daqueles amigos, mesmo quando não estão, existem algures, só não vieram. Foi assim que me senti ontem, entre os que conhecia menos bem, sabendo deles e eles, provavelmente, de mim. Foi uma noite feliz, de Natal, de gente tão chegada, que nos conhece tão bem, é isso: amizade para sempre.
E está tudo na mesma, repito. O tempo passa por nós muito depressa, entre os 30 e os 40 anos, depois passa devagarinho e deixa algumas marcas, mas muito menos. Temo que a queda seja depois, mas muito mais tarde; aguardemos serenamente pela algália e fralda. Agora uma coisa que o tempo não perdoa, é esta: entre os presentes e as coisas que se mostram e o deixa cá ver isso e o mostra a fotografia, o gesto do afasta, estica a cabeça, franze a testa: a frase mais ouvida da noite foi
Tenho uma data de blogs no meu reader que nunca leio. Mas não os tiro, estão lá desde o princípio (da blogsfera) dos readers. Clico, vejo que estão vivos. São aqueles blog-conhecidos a quem noutros tempos mandaríamos boas festas e, se nos encontramos, damos palmadas nas costas “ó tempo! é verdade! temos que combinar qualquer coisa! Pois temos!” até daqui a mais uns anos, outra vez por mero acaso na rua (no reader). Porque de facto gostamos ou gostámos daquela pessoa, daquele blog, depois cada um foi para seu lado, mas gostamos de saber que estão vivos e bem e mexem e tudo o mais.
(entretanto distraí-me e esqueci-me que estava a escrever um post e agora falta-lhe um epílogo, mas não estou para aí virada)
…ok, o epílogo era “qualquer dia tenho que os tirar dali, que me empatam a leitura dos outros, mas custa-me”
Todas a gente faz doces, eu estou a escrever postes.
[constatando que é a época do doce de abóbora com nozes, que tenho ali um frasco - menos de meio - oferecido pela minha querida Rita Quintela, que não sei fazer doce de abóbora e o bom é que não preciso, quem tem amigas assim, tem tudo e mais frascos de doce e mesmo que soubesse (e me apetecesse esventrar abóboras e encher tachos), provavelmente iria achar que tinha tempo até acabar o tempo das abóboras]
[sou pessoa para não me importar nada de encontrar mais frascos de doce de abóbora e nozes no meu sapatinho, aqui fica a ideia para quem diz que nunca sabe o que gosto, ouviram ó família? e também podem vir as tostas, Pingo Doce, Continente, na boa, desde que com sal por cima]
momento que me esqueci de meter categoria, tag e foto óóó que se lixe a foto
Escrevi, escrevi, é por isso que nunca mais me lembrei.
É Natal. E eu estou feliz, mas agora estou sem tempo porque estou a tratar disso. Tenho tanta coisa já organizada que me vou esquecendo do resto (tudo Natal) e qualquer dia é Janeiro e nessa altura ando eu a ver onde estão as bolas para pendurar na árvore. E tudo isto a rir (com intervalos para berrar sobre macaquices, a torneira que pinga, o frio de manhã, o cabelo que nunca está como se quer, a esplanada à chuva a meio das iscas, o cabrão que apita na fila, mas isso é o meu normal) e a organizar mais não sei quantas coisas e a esquecer-me de outras tantas. Este ano tenho tanto tempo/espaço que acho que é imenso e dá para tudo e o engraçado é que dá mesmo, embora depois tenha a (vaga, muito vaga!) sensação que vá passando o tempo e, muito provavelmente, lá para os lados da meta, vá andar a correr aos palavrões a perguntar-me porque raio não fiz isto ou aquilo se estava tão bem pensadinho. Assim, como os posts de Natal e essas coisas. Mas tudo se há-de conseguir, porque se nos anos todos se consegue, este ainda mais, já que está está carregado de positrões, que são umas partículas de karma positivo
alto! E o coisélio de Higgs? Sempre apareceu?
já volto!
[quando uma pessoa escreve "karma positivo" num post, está na hora de fugir a sete pés e fazer de conta que nem sabe de nada]
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