100nada

Janeiro sete – Um chá nocturno

De qualquer coisa num saquinho, tília, cidreira, camomila, uma colher de mel. Uma caneca de publicidade, que insisto em usar desde os primeiros chás nocturnos que escrevi, o mesmo piano do destino de Amelie em banda sonora, a tentar agarrar outro tempo em que outra pessoa era eu. Depois, um gesto brusco, corre chá pelo chão e eu (tão ainda eu) ignoro o chão e registo o facto.
Levámos a cadela à praia, outro facto. Com frio e luz já sem sol, quase deserta, areia molhada com pegadas de pessoas e cães, um regador azul atirado, pneus presos nas rochas. Um rapaz e um cão a correr para cá e para lá, numa trela de 15 metros, não, não a soltámos, outro dia. Aos poucos, eu (tão ainda eu) sou aos poucos, mas se calhar não era. Não me lembro, mudei talvez, também aos tão poucos que não dou por isso. Às vezes fazemos coisas, há quem diga acontecem, são sortes ou azares, mas recuso-me a aceitar um destino aleatório de acasos, todas as minhas escolhas foram escolhas, sem saber, é certo, mas escolhas sempre, recuso-me a não me responsabilizar, mas sei que seria mais simples culpar qualquer instância exterior, às vezes fazemos coisas que não são aos poucos, são aquele momento (aquela escolha) e o que vem depois, muda-nos aos poucos. E nem sempre é o óbvio, pode ser outra coisa, as coisas todas emaranhadas em fios quase da mesma cor e já não se percebe que princípio (qual coisa, qual escolha) era o deste ou daquele fio. Uma praia cheia de pegadas na areia (e parecem tão aleatórias mas foram escolhas) e eu a tentar traduzir fios, um exercício quase inútil, o facto é que (tão ainda eu) estou aqui.


Janeiro seis

Não, não me comovam. Não mexam comigo. Não me toquem, fiquem à distância que me impus, um braço esticado com a mão em pára, o lado de lá do muro, um quilómetro ou um oceano de distância, fiquem lá e eu aqui, não mexam comigo. Não quero senão o meu barco de papel à deriva, nunca pedi cruzeiros, não preciso de mapas. Deixem-me estar ou ir, não quero amarras, não preciso de portos de abrigo, quero tempestades sozinha, silêncios vazios, não mexam comigo. Deixem-me ficar a dobrar cantos até conseguir dobrar tanto que a folha se transforme num barco onde só caiba eu e não se desfaça na água, não quero acabar a boiar. Deixem-me ir assim num faz de conta que nunca estive, que nem se deu por nada, um papel dobrado em branco que já mal se vê na rebentação.
Não, não me comovam. Não mexam comigo. Não me toquem porque me desconstruiria, os muros todos feitos areia e deram muito trabalhinho a erguer.


Janeiro quatro – O meu filho e eu

Quando eles são pequenos, quando o meu filho era pequeno, deitava-o todos os dias. Depois da história e das perguntas, de mais um bocadinho de conversa e que agora não eram horas, da oração e do beijo de dorme bem, meu amor, ele pedia “main, ficas aqui um bocadinho?” E eu ficava, sentada ao lado da cama e ele já muito ensonado “a mão” e eu dava-lhe a mão. Em silêncio, às escuras, uma mão pequenina na minha, eu também de olhos fechados sem nunca adormecer, a saborear aquele momento, uma paz, uma felicidade quieta, uma redoma sobre os dois, onde se quebravam todas as ondas de angústia, de momentos mais tristes, onde desapareciam todos os males da vida e do mundo, o meu filho e eu, a mãe sempre a correr, a ralhar, a berrar, toda eu em mãe que agarra a mão.
Depois crescem e ficam crescidos e vai desaparecendo a história, o ficas aqui, já não se dá a mão. Conversas, muitas, beijo de dorme bem, meu amor, até ao tempo em que, muitas vezes, já se deitam depois de nós, já são eles que deitam a mãe. E pergunta “mãe, já vais dormir?” E vem ao meu quarto e dá-me um beijo, eu digo “dorme bem, meu amor” e ele repara “estás com tanto sono, tens os olhos pequeninos ” e inclina o metro e oitenta até tapar a luz do candeeiro que me bate na cara, todo ele em filho que agarra a mãe.


Janeiro três – No semáforo vermelho

A rapariga tem a janela do carro aberta, um cigarro numa mão e canta muito alto (muito desafinada) ohhhhhh we close our eyes, the perfect liiiiiiife. Tira uma fotografia ao semáforo, arranca no verde e pensa ficava muito melhor uma fotografia daquelas janelas iluminadas, escritórios com mesas e secretarias e pessoas, podia chamar-lhe a vida aos quadradinhos mas agora não dá, há que andar. Ainda é dia ou já é outra vez dia, o primeiro dia de inverno é o princípio do verão. Tem pensado muito nisso, em dias gelados ou chuvosos, dias tristonhos e feios: nunca mais é verão. E depois chega e desaparece num instante e já foi verão e espera lá! Como é que foi isto, já passou? E agora, espera-se pelo próximo verão, em estado meio hibernado, em toca de mantas e chás, só assim, a ver passar os dias? E as pessoas que vivem sempre mais ou menos no inverno, estão anestesiadas a vida toda? Há aqui alguma coisa errada, gastar dias em nada só porque são feios e não se gosta deles.
Os miúdos, quando são pequenos, tanto lhes faz. Está a chover, é fixe, saltam nas poças de água, está frio e é correr atrás deles, veste o casaco! É indiferente, trazem dentro um verão só deles.
Se calhar é isso que a rapariga que canta aos berros dentro do carro, de algum modo, também quer. Trazer dentro um verão só dela, todos os dias.


Janeiro dois

A fotografia do dia não a tirei, claro, ia a guiar. Chuva torrencial e uma rotunda cheia de erva e plantas verdes. No meio das plantas, uma mais estranha e eu a passar e a pensar o que é aquilo? E depois, já na fotografia mental, é um tipo vestido de impermeável verde, com capuz, a jardinar. Uma planta com uma cara ensopada. Aposto que estava de trombas, mas não consegui ver bem.
Conta que não sou simpática. Só consta, claro, que eu sou um encanto de pessoa, nem sei porque é que não pareço. E então abri sorrisos hoje e levei com uma data de caras fechadas, uns vagos esgares e uns resmungos que tanto podiam ser bons dias como deves ser uma doida varrida a sorrir à parva. Valentemente, prossegui o esforço, com vontade de os mandar todos à fava e fiz a figura da tola que se ri de nada. Ainda é só dia dois, daqui a uns dias devo voltar ao normal e o caminho para o inferno perde meia dúzia de lajes. Também não fará grande diferença, deve haver carradas delas ainda amontoadas à espera de trolhas suficientes. Se eu mandasse nas almas penadas, punha-as todas a pavimentar o caminho no princípio do ano, parece-me mais útil que alombar com pedras por encostas acima.
Depois dei um grande abraço à minha cabeleireira. Ela precisava mesmo (eu se calhar também) e nem sou de grandes abraços. E esse não foi nem por nem para ser simpática. Sou uma besta que, às vezes, se comove. Calha.


Janeiro um

Não há resoluções de ano novo, nunca resultam. Mas há sempre intenções. E a minha é ser mais feliz. Não que não seja, mas distraio-me. Quando tenho coisas que me pesam, distraio-me e não aprecio as coisas boas como merecem. Dou por elas, sei que são momentos bons mas não me foco; tenho a cabeça noutro lado qualquer, um bocadinho mais escuro e não vejo bem. E sei que é estúpido, estou a olhar para o momento, reconheço-o como um dos que quero e vou guardar e não me toca. Acho que construímos uma parede transparente de distanciamento entre nós e aquilo que nos está a moer o juízo naquele momento e a parede não desaparece quando olhamos para o resto. É um dilema tramado: para apreciar os momentos felizes temos que levar com o embate sem protecção dos menos bons, que não há botões de liga e desliga, consoante dá mais jeito.
A minha intenção é ser mais feliz mas se calhar vou ter que deixar de pairar sobre o que me dói. Não é nada simples.


O (único) post do ano

Com um copo de tinto ao lado. Coisa rara, quase tão rara como escrever aqui.
Vinha agora a pensar em frases tipo “em vez de presentes no Natal, ofereça o seu tempo às pessoas da sua vida” e depois pensei mais coisas mas não interessa aqui.
Tenho a cadela enrolada no chão ao lado. Ter um cão é uma trabalheira e ao mesmo tempo tão simples. Tão bom.
Há três estrelas seguidas – agora não as vejo daqui – não faço ideia que constelação sejam (ou sei mas não me lembro e também não interessa) que todas as noites de céu limpo, me guiam. Estrelinhas que vos guiem…sim, conheço a expressão, neste caso em auto qualquer coisa, em auto-modo, vá, porque isto é mesmo assim. Uma pessoa guiar-se pelas estrelas é coisa do passado e talvez pouco fiável, mas uma pessoa guiar-se serve para quê, exactamente? Para não errar o caminho para onde? É um bocado estúpido, não é? Portanto aquelas três estrelas servem perfeitamente. É o momento em que fumo um cigarro em silêncio e olho para o céu. A cadela sempre ao lado. Acompanha-me na minha pequena viagem diária e silenciosa pelas estrelas, às vezes a roer um brinquedo, às vezes a dormir, às vezes a olhar para mim com uns olhos meio amarelos e brilhantes, um ar de lobo feroz cheio de dentes, em versão sou tua e tu és minha, vou contigo. Mesmo que não saiba para onde, mesmo que não saibas para onde, vou contigo. É cão, não lhe interessa o resto, é tudo muito simples. Qualquer caminho.
E eu também, um pouco assim, qualquer caminho.
Talvez seja esse o meu, aquele que tento sempre, o da sabedoria ou lá o que for, talvez seja esse o meu: à deriva, qualquer que seja a direcção, umas vagas estrelas, um cão; ir andando.


Vistas curtas

Ainda se vê uma tira de mar.
A vista foi desaparecendo com o tempo e a exuberância da flora. No lugar dela, dessa água agora quase imaginária, sobrou uma mancha vaga e disforme, a ocupar o espaço que vai dos olhos à distância, como se a visão ali falhasse, quebrada. Essas coisas que toldam aquilo que se vê, embora se saiba que lá está, são (uma merda) um aborrecimento, para não dizer tristeza. Não é simples de arredar e vai crescendo (literalmente também) até se esquecer do que está para diante e passar a ser tudo baço.
Ainda se vê uma tira de mar. Nessa transparência (estreita, estreita) é (ainda) possível focar.


Termómetro num dia de chuva

Um filtro de betão armado, foi isso e embora reconheça que só sem filtros é que pode haver (alguma, relativa) qualidade nesta mania de juntar letrinhas com (algum, relativo) sentido, o facto é que sem filtro não se respira. Devia ser ao contrário
com filtro também não se respira
e provavelmente é.

Mas a ideia é haver (não alguma, não relativa) falta de ar.

(estou de uma banalidade assustadora, é o depósito onde vão parar as coisas filtradas)


letter to self

Segue, nâo penses muito, não penses nada, não penses em nada, apenas segue os dedos no teclado; há coisas que não mudam, templates brancos, os dedos a correr sobre as teclas, há hábitos (manias) que, não sendo iguais, podem ser replicados, mesmo que agora pareça ainda estranho, segue sem pensar, essa é a parte mais difícil a regressar.

tens um cinzeiro, um copo de ice tea, a música nos ouvidos (ainda ouves Moby?), um teclado e um monitor sobre a mesa, uma camisola de alças, a janela aberta à noite de um final de verão, precisas de mais alguma coisa? tens-te a ti, sempre tiveste e, embora aches que o teu pragmatismo realista te prega ao chão, quem andou a martelar os pregos não foi mais ninguém. Já usavas esse martelo no meio da testa a ver se abre uma brecha até porque, contrariamente ao muito apregoado pelos românticos, o coração não passa de um músculo que bombeia o sangue e a alma há-de estar atrás da parte do cérebro que (esse sim) aloja o raciocínio e o resto, essa amálgama sem nome, onde se misturam as coisas menos lógicas que, por vezes, nos fodem o juízo mas que nos fazem sentir vivos.

Não te queixes, portanto nem digas que sobra pouco para escrever, que estás mergulhada no alcatrão da estrada com as penas coladas, porque sabes perfeitamente que em cada semáforo da tua vida onde paras, olhas sempre para o céu.