100nada

O meu tempo 100nada

Cada vez tenho menos. Tempo sem nada. Não é que não tenha tempos mortos, inactivos, tenho. Às vezes prolongam-se tanto que conto minutos, passou um, passou outro, só passaram cinco? Esses são longos, cansam-me. Não é tempo sem nada, esse é tempo cheio de vazio, cheio de alternativas melhores que não acontecem. Porque não dá, não calha, por inércia também, por querer encher esses minutos que não passam com tralha rápida, que distraia do próximo minuto. Tempo vazio não é tempo que se escolhe não ter nada.
Esse é este, quando se pára o relógio porque se quer. Pára o relógio, pára tudo porque se quer. E dá, obviamente; normalmente não coincide, daí que cada vez tenho menos
ou não, ou não.
Talvez sinta que tenho menos por ter mais do outro. E agora oiço um coro de mins
Isso é a tua escolha, oh parvalhona!
E todas elas têm razão, todas as eus de antes. Todas as eus alternativas de agora. Todas as eu de depois. Todas menos eu, esta que se queixa
Não te queixas, oh estúpida! Aí é que está!
Que não se queixa, certo. Isso é que está fora de questão.


o RGPD e não sei quê

Em 1999 o mundo ia acabar. Estava a chegar o ano 2000 e o vírus y2k, um bug que ia explodir em todos os sistemas porque lhes faltava um contador a virar um número e voltaria ao zero. Ou coisa parecida. A histeria foi geral, íamos todos regredir à idade da pedra, isto se o bug não rebentasse os mísseis, os microondas e o universo praticamente todo.

Por esta altura, véspera da aplicação de um Regulamento que já vem de 2016 ou assim e que por sua vez vem de outra altura qualquer, a histeria é parecida. De hoje para amanhã ou depois, ou se responde a centenas de e-mails e sms ou OS NOSSOS DADOS SÃO APAGADOS! É o fim do mundo ou pelo menos parece, já que o universo é feito de dados e eles “andem” aí perdidos por todo o lado, a explodir em servidores. De repente toda a gente recebe comunicações a avisar que eles têm os nossos dados e precisamos de dizer que sim, ou não, ou não fazer nada ou preencher um questionário de 20 páginas, consoante não o tamanho ou dimensão ou quantidade de dados que aquela entidade tem nossos, mas ao sabor da interpretação do desgracado do lado de lá, imerso em legislação comunitária daquela ilegível e vídeos do YouTube. Está metade do país a perguntar como é que se faz esta merda e 100% das pessoas à hora de almoço já gastou a bateria do telemóvel e o tempo todo a ler e responder (ou não) àquele dilúvio de pedidos. Um inferno e cada vez que respondemos, confirmamos que sim, somos nós, naquele número, endereço, o que for que eu desconfio muito destas cenas (mas sim, quero continuar a receber as vossas promoções, claro).
Eu sou toda pela protecção de dados. Toda. Acho que faz todo o sentido proteger a população dela própria. Num mundo onde toda a gente espeta a cara (já para não falar no rabo), as paisagens, os gostos, os hábitos, os horários, os percursos, é sempre bom é lógico que haja a preocupação que tudo o que uma pessoa, usando o seu livre arbítrio (e discernimento ou falta dele) decide colocar na net, seja protegido. E mais o resto que também decide informar, sem ser na net. Assim ninguém mais usa. Porque há um regulamento.
Um R E G U L A M E N T O.
Certo.


A capa do Expresso em 2009

É mesmo verdade que, como se nota nas fotos, eu guardei o Expresso. Há 9 anos, apareci na capa do Expresso. Um quadradinho a remeter para o artigo da revista, uma amabilidade do Henrique Monteiro com quem eu ia conversando no Twitter e que me autorizou a usar a foto (ainda hoje uso) no meu perfil.
Foi um momento não inédito (tirando a emoção de estar na capa) que já tinha havido um artigo anterior sobre o Second Life, mas foi bestial. Quantas pessoas ninguéns estão na capa de um jornal daqueles? Um orgulho, ainda hoje. O meu momento de fama, as minhas manias e entusiasmos de ser early adopter em cenas online.
E, com todas as tais cenas online e não só, a escrita, os blogs, os artigos na revista Psicologia Actual da Chantal Feron, o Twitter, a catrefada de redes sociais que já nem sei o nome, os mundos virtuais, os convites e insistência do Paulo Querido para me despachar com o livro que nunca lhe entreguei sequer um esboço, eu – burra – não vi oportunidades. Vi e vivi entusiasmo, alegria, divertimento, realização, mas a dedicação séria era noutras áreas. Trabalho é trabalho, o resto é tempo livre quando dá e apetece.
Eis como se desperdiçam oportunidades. Leiam isto, olhem para mim e pensem: quando há coisas que gostam mesmo de fazer, façam.
Mesmo com essa pena, o meu enorme obrigada a toda a gente que apostou em mim, que me deu asas e, acima de tudo, aos meus leitores, os milhares de antes e os 37 de agora. :)


Becos com saídas também becos

Há merdas que me deixam doente. É isto. Merdas que me tiram do sério. Eu respiro, eu digo ahommms interiores, eu cravo as unhas nas mãos, eu desvalorizo, eu penso a minha vida não é isto, eu conto até sete mil quatrocentos e noventa e seis, eu peso se é mais uma merdicaca e valerá a pena e o meu tempo, eu faço o esforço todo e mais algum e depois rosno, ainda tento rosnar baixo mas não ouvem. Rosno alto, claro e se também não ouvem, a seguir é ladeira abaixo, a loiça toda a voar e na minha imaginação, já estava era a furar cérebros com tubos que eu agora vejo muito walking dead.
Admiro muito sinceramente pessoas que aguentam estoicamente toda a merda que lhes cai em cima. Provavelmente a grande parte nem nota, portanto não será estoicamente, mas vá, algumas sim. Sorrir e acenar está tudo muito bem, mas não serve. Uma pessoa sorri e acena e parece que está a enviar um convite para mais um camião cisterna que acabou de limpar umas dezenas de fossas e se desviou directo a nós. É certo que desatar ao pontapé ao camião também não adianta grande coisa, mas qual é a solução? Há, há sempre solução para quase tudo, mas temo que seja mais do mesmo. Manter o equilíbrio entre sorrir, acenar e rosnar. Talvez.


Dêem-me com uma marreta nos cornos (*)

A qualidade de um verniz das unhas mede-se pela quantidade que fica nos dedos quando se tem as mãos a tremer enquanto as pintamos. Não é nenhuma metáfora, estou incapaz disso, cansaço extremo. É um facto, pintei as unhas ontem e temi (e tremi) o pior o tempo inteiro, mas aquele pincel era realmente um espectáculo.
Uma pessoa quando está muito cansada pode pintar as unhas mas é melhor ficar quieta porque pode correr mal. E calada, também, porque também pode correr mal. Mas depois não se aguenta e vai directa de cabeça ao cepo, olha falhaste ali aquele pedaço que faltou cortar, esse aí mesmo, ao pé da orelha, isso, mais uma machadada valente! Depois tem insónias e queixa-se, hoje não dormi nada, estou toda a tremer, tenho aqui um bocado de alma toda esmigalhadinha (não é esse que me dói, não é esse músculo que bombeia o sangue, toda a gente sabe que a alma e o coração estão nas sinapses e essas estão assim um bocado combalidas e é de estarem ligadas tantas horas) e o mal é, basicamente, sono. Mas não aprende, só no curto prazo e e. Sempre um certo optimismo, isto corre bem mesmo sabendo que de certeza vai sobrar para os dedos, um certo que se foda não há-de ser o fim do mundo, alguma muito cretina bravata, pá não vou ficar quieta, não é? E zero cérebro, do outro, o que supostamente devia estar a contar um, dois, sete mil quatrocentos e noventa e três, sete mil quatrocentos e noventa e quatro, porque todo auto (e não só) picaretado.

(*) assim como assim, não faz mais mossa


À vista de toda a gente

Um dia, a organizar uma caça ao tesouro (organizava todos os anos) e a esconder envelopes, decidi enfiá-los todos numa parede de rede, completamente à vista. É giro, há fotografias das pessoas à procura por todo o lado e os envelopes ali, vêem-se perfeitamente. Só resulta uma vez, mas calhou mesmo bem.
Tinha escrito “mas foi uma cena mesmo fixe” e foi, mas apaguei. Depois pensei ora que se lixe, é um envelope numa rede e calha que é minha (até pago por ela e tudo). Foi uma cena mesmo fixe. Estou a ver uma das fotografias na minha cabeça. Lembro-me da fotografia, não me lembro da cena em si e fui eu a tirar. É por isso. Tiramos retratos e lembrando-nos dos retratos, é o que fica, o resto vai sumindo, a pic vamos revendo. Não tenho a certeza se somos feitos para isso. Esta necessidade de registar memórias, se calhar não é bom, deviam esbater-se, dar lugar a novas em vez de irmos lá atrás rever momentos registados. Não nos queremos esquecer deles, são importantes. Mas não sei se somos feitos para isso ou se devíamos largar, desligar deles. Tenho a sensação que vivo sempre entre uma coisa e outra, se me desligo, se me ligo outra vez. É um local solitário
estão uma data de luzinhas vermelhas a piscar agora, não vás por aí, não escrevas palavras que andas a moer, enquanto não escreveres, enquanto não disseres alto, não acontece, não é real
mas enquanto for envelope
Quanto tempo aguentas dentro do envelope até anunciares que o destinatário é toda a gente?
enquanto for envelope, estava eu a dizer
estás a sublinhar e sabes.
Sei.


Todas eu nós

Vivo em fios, pendurada, às vezes pelos cabelos, na corda bamba, no fio de uma lâmina, às vezes tão enrolada, quase sufocada. Vivo em fios e alguns só me ligam e outros amarro-os eu, aos pés, com uma pedra grande na ponta que depois arrasto atrás. Vivo em fios e sinto que

são puxados, como agora na mão que escreve, não digas nada, não toques no fio que ainda estragas.

Vivo em fios, toda eu nós, amarrada.


O som do desencontro

Nos dias de tempestade há um som para além daquele que as árvores fazem quando estão fartas de estar no mesmo sítio e estendem ramos e folhas até ao limite da quebra ou para além dele. É um som com vários tons, aquele surdo que se sente como os cães sentem quando o inimigo está ao virar da esquina, como o que se sente nos ossos quando a terra treme, como o que se sente no estômago antes ainda de levar um murro, o som da antecipação inevitável.
Depois há outro tom misturado e é esse que me intriga. É um tom metálico, como se alguma coisa muito pesada e lenta estivesse de alguma forma a mover-se e isso lhe custasse. E eu, que sei perfeitamente que som é este, tento distinguir essa parte e nunca consigo porque o vento nas árvores o esmorece e imagino que é de propósito para eu não saber.

Porque quem vive perto do mar, sabe perfeitamente que som é este, não tem nada de magia ou mistério, são só ondas, nada de estranho, nada de extraordinário. Só ondas e, no entanto, cada vez que oiço aquela nota, sonho que lá no fundo os barcos afundados estendem pedaços partidos aos ramos das árvores em terra.


Um barco afundado em terra

Elefantes voadores, ilhas e barcos. Como se a vida fosse água e não um mar de cimento ainda por secar.
Escrever o que vai na alma, pois está bem, mas só há o onde, esta folha vazia que merecia mais. Mas vamos amontoando cenas, nunca calha. Quando era miúda não tinha vergonha de nada, agora neste tempo de imagem, as palavras são antigas, não há espaço, não há lado de dentro. É preciso coragem, não sei se tenho. Quando era miúda não tinha medo de nada, agora só do ridículo cada vez que
Parece que um gajo deixou a alma lá atrás em qualquer lado
Há uns anos um amigo também antigo, antigo amigo de anos, antigo também no cansaço, no já passámos por tanta coisa, disse-me uma frase, assim, atirada no meio de uma conversa
Mas fiquei a pensar
Na altura respondi estás enganado
E ele nem sei o que disse depois mas transformando a conversa em ficção (ele não se importa de certeza)
E se não disse podia ter dito
Então enganamo-nos a nós mesmos
Mas agora – nisto que já sou eu a pensar numa conversa imaginaria – não sei se nos enganamos para sim ou para não
Já não temos idade para nos apaixonarmos
Disse ele
E eu, tanta coisa que sinto tanto e não acho que tenha a ver com a idade
Mas pode ser cimento.
Ou ridículo.
Ou qualquer merda que nos ata.


Janeiro sete – Um chá nocturno

De qualquer coisa num saquinho, tília, cidreira, camomila, uma colher de mel. Uma caneca de publicidade, que insisto em usar desde os primeiros chás nocturnos que escrevi, o mesmo piano do destino de Amelie em banda sonora, a tentar agarrar outro tempo em que outra pessoa era eu. Depois, um gesto brusco, corre chá pelo chão e eu (tão ainda eu) ignoro o chão e registo o facto.
Levámos a cadela à praia, outro facto. Com frio e luz já sem sol, quase deserta, areia molhada com pegadas de pessoas e cães, um regador azul atirado, pneus presos nas rochas. Um rapaz e um cão a correr para cá e para lá, numa trela de 15 metros, não, não a soltámos, outro dia. Aos poucos, eu (tão ainda eu) sou aos poucos, mas se calhar não era. Não me lembro, mudei talvez, também aos tão poucos que não dou por isso. Às vezes fazemos coisas, há quem diga acontecem, são sortes ou azares, mas recuso-me a aceitar um destino aleatório de acasos, todas as minhas escolhas foram escolhas, sem saber, é certo, mas escolhas sempre, recuso-me a não me responsabilizar, mas sei que seria mais simples culpar qualquer instância exterior, às vezes fazemos coisas que não são aos poucos, são aquele momento (aquela escolha) e o que vem depois, muda-nos aos poucos. E nem sempre é o óbvio, pode ser outra coisa, as coisas todas emaranhadas em fios quase da mesma cor e já não se percebe que princípio (qual coisa, qual escolha) era o deste ou daquele fio. Uma praia cheia de pegadas na areia (e parecem tão aleatórias mas foram escolhas) e eu a tentar traduzir fios, um exercício quase inútil, o facto é que (tão ainda eu) estou aqui.