100nada

À vista de toda a gente

Um dia, a organizar uma caça ao tesouro (organizava todos os anos) e a esconder envelopes, decidi enfiá-los todos numa parede de rede, completamente à vista. É giro, há fotografias das pessoas à procura por todo o lado e os envelopes ali, vêem-se perfeitamente. Só resulta uma vez, mas calhou mesmo bem.
Tinha escrito “mas foi uma cena mesmo fixe” e foi, mas apaguei. Depois pensei ora que se lixe, é um envelope numa rede e calha que é minha (até pago por ela e tudo). Foi uma cena mesmo fixe. Estou a ver uma das fotografias na minha cabeça. Lembro-me da fotografia, não me lembro da cena em si e fui eu a tirar. É por isso. Tiramos retratos e lembrando-nos dos retratos, é o que fica, o resto vai sumindo, a pic vamos revendo. Não tenho a certeza se somos feitos para isso. Esta necessidade de registar memórias, se calhar não é bom, deviam esbater-se, dar lugar a novas em vez de irmos lá atrás rever momentos registados. Não nos queremos esquecer deles, são importantes. Mas não sei se somos feitos para isso ou se devíamos largar, desligar deles. Tenho a sensação que vivo sempre entre uma coisa e outra, se me desligo, se me ligo outra vez. É um local solitário
estão uma data de luzinhas vermelhas a piscar agora, não vás por aí, não escrevas palavras que andas a moer, enquanto não escreveres, enquanto não disseres alto, não acontece, não é real
mas enquanto for envelope
Quanto tempo aguentas dentro do envelope até anunciares que o destinatário é toda a gente?
enquanto for envelope, estava eu a dizer
estás a sublinhar e sabes.
Sei.


Todas eu nós

Vivo em fios, pendurada, às vezes pelos cabelos, na corda bamba, no fio de uma lâmina, às vezes tão enrolada, quase sufocada. Vivo em fios e alguns só me ligam e outros amarro-os eu, aos pés, com uma pedra grande na ponta que depois arrasto atrás. Vivo em fios e sinto que

são puxados, como agora na mão que escreve, não digas nada, não toques no fio que ainda estragas.

Vivo em fios, toda eu nós, amarrada.


O som do desencontro

Nos dias de tempestade há um som para além daquele que as árvores fazem quando estão fartas de estar no mesmo sítio e estendem ramos e folhas até ao limite da quebra ou para além dele. É um som com vários tons, aquele surdo que se sente como os cães sentem quando o inimigo está ao virar da esquina, como o que se sente nos ossos quando a terra treme, como o que se sente no estômago antes ainda de levar um murro, o som da antecipação inevitável.
Depois há outro tom misturado e é esse que me intriga. É um tom metálico, como se alguma coisa muito pesada e lenta estivesse de alguma forma a mover-se e isso lhe custasse. E eu, que sei perfeitamente que som é este, tento distinguir essa parte e nunca consigo porque o vento nas árvores o esmorece e imagino que é de propósito para eu não saber.

Porque quem vive perto do mar, sabe perfeitamente que som é este, não tem nada de magia ou mistério, são só ondas, nada de estranho, nada de extraordinário. Só ondas e, no entanto, cada vez que oiço aquela nota, sonho que lá no fundo os barcos afundados estendem pedaços partidos aos ramos das árvores em terra.


Um barco afundado em terra

Elefantes voadores, ilhas e barcos. Como se a vida fosse água e não um mar de cimento ainda por secar.
Escrever o que vai na alma, pois está bem, mas só há o onde, esta folha vazia que merecia mais. Mas vamos amontoando cenas, nunca calha. Quando era miúda não tinha vergonha de nada, agora neste tempo de imagem, as palavras são antigas, não há espaço, não há lado de dentro. É preciso coragem, não sei se tenho. Quando era miúda não tinha medo de nada, agora só do ridículo cada vez que
Parece que um gajo deixou a alma lá atrás em qualquer lado
Há uns anos um amigo também antigo, antigo amigo de anos, antigo também no cansaço, no já passámos por tanta coisa, disse-me uma frase, assim, atirada no meio de uma conversa
Mas fiquei a pensar
Na altura respondi estás enganado
E ele nem sei o que disse depois mas transformando a conversa em ficção (ele não se importa de certeza)
E se não disse podia ter dito
Então enganamo-nos a nós mesmos
Mas agora – nisto que já sou eu a pensar numa conversa imaginaria – não sei se nos enganamos para sim ou para não
Já não temos idade para nos apaixonarmos
Disse ele
E eu, tanta coisa que sinto tanto e não acho que tenha a ver com a idade
Mas pode ser cimento.
Ou ridículo.
Ou qualquer merda que nos ata.


Janeiro sete – Um chá nocturno

De qualquer coisa num saquinho, tília, cidreira, camomila, uma colher de mel. Uma caneca de publicidade, que insisto em usar desde os primeiros chás nocturnos que escrevi, o mesmo piano do destino de Amelie em banda sonora, a tentar agarrar outro tempo em que outra pessoa era eu. Depois, um gesto brusco, corre chá pelo chão e eu (tão ainda eu) ignoro o chão e registo o facto.
Levámos a cadela à praia, outro facto. Com frio e luz já sem sol, quase deserta, areia molhada com pegadas de pessoas e cães, um regador azul atirado, pneus presos nas rochas. Um rapaz e um cão a correr para cá e para lá, numa trela de 15 metros, não, não a soltámos, outro dia. Aos poucos, eu (tão ainda eu) sou aos poucos, mas se calhar não era. Não me lembro, mudei talvez, também aos tão poucos que não dou por isso. Às vezes fazemos coisas, há quem diga acontecem, são sortes ou azares, mas recuso-me a aceitar um destino aleatório de acasos, todas as minhas escolhas foram escolhas, sem saber, é certo, mas escolhas sempre, recuso-me a não me responsabilizar, mas sei que seria mais simples culpar qualquer instância exterior, às vezes fazemos coisas que não são aos poucos, são aquele momento (aquela escolha) e o que vem depois, muda-nos aos poucos. E nem sempre é o óbvio, pode ser outra coisa, as coisas todas emaranhadas em fios quase da mesma cor e já não se percebe que princípio (qual coisa, qual escolha) era o deste ou daquele fio. Uma praia cheia de pegadas na areia (e parecem tão aleatórias mas foram escolhas) e eu a tentar traduzir fios, um exercício quase inútil, o facto é que (tão ainda eu) estou aqui.


Janeiro seis

Não, não me comovam. Não mexam comigo. Não me toquem, fiquem à distância que me impus, um braço esticado com a mão em pára, o lado de lá do muro, um quilómetro ou um oceano de distância, fiquem lá e eu aqui, não mexam comigo. Não quero senão o meu barco de papel à deriva, nunca pedi cruzeiros, não preciso de mapas. Deixem-me estar ou ir, não quero amarras, não preciso de portos de abrigo, quero tempestades sozinha, silêncios vazios, não mexam comigo. Deixem-me ficar a dobrar cantos até conseguir dobrar tanto que a folha se transforme num barco onde só caiba eu e não se desfaça na água, não quero acabar a boiar. Deixem-me ir assim num faz de conta que nunca estive, que nem se deu por nada, um papel dobrado em branco que já mal se vê na rebentação.
Não, não me comovam. Não mexam comigo. Não me toquem porque me desconstruiria, os muros todos feitos areia e deram muito trabalhinho a erguer.


Janeiro quatro – O meu filho e eu

Quando eles são pequenos, quando o meu filho era pequeno, deitava-o todos os dias. Depois da história e das perguntas, de mais um bocadinho de conversa e que agora não eram horas, da oração e do beijo de dorme bem, meu amor, ele pedia “main, ficas aqui um bocadinho?” E eu ficava, sentada ao lado da cama e ele já muito ensonado “a mão” e eu dava-lhe a mão. Em silêncio, às escuras, uma mão pequenina na minha, eu também de olhos fechados sem nunca adormecer, a saborear aquele momento, uma paz, uma felicidade quieta, uma redoma sobre os dois, onde se quebravam todas as ondas de angústia, de momentos mais tristes, onde desapareciam todos os males da vida e do mundo, o meu filho e eu, a mãe sempre a correr, a ralhar, a berrar, toda eu em mãe que agarra a mão.
Depois crescem e ficam crescidos e vai desaparecendo a história, o ficas aqui, já não se dá a mão. Conversas, muitas, beijo de dorme bem, meu amor, até ao tempo em que, muitas vezes, já se deitam depois de nós, já são eles que deitam a mãe. E pergunta “mãe, já vais dormir?” E vem ao meu quarto e dá-me um beijo, eu digo “dorme bem, meu amor” e ele repara “estás com tanto sono, tens os olhos pequeninos ” e inclina o metro e oitenta até tapar a luz do candeeiro que me bate na cara, todo ele em filho que agarra a mãe.


Janeiro três – No semáforo vermelho

A rapariga tem a janela do carro aberta, um cigarro numa mão e canta muito alto (muito desafinada) ohhhhhh we close our eyes, the perfect liiiiiiife. Tira uma fotografia ao semáforo, arranca no verde e pensa ficava muito melhor uma fotografia daquelas janelas iluminadas, escritórios com mesas e secretarias e pessoas, podia chamar-lhe a vida aos quadradinhos mas agora não dá, há que andar. Ainda é dia ou já é outra vez dia, o primeiro dia de inverno é o princípio do verão. Tem pensado muito nisso, em dias gelados ou chuvosos, dias tristonhos e feios: nunca mais é verão. E depois chega e desaparece num instante e já foi verão e espera lá! Como é que foi isto, já passou? E agora, espera-se pelo próximo verão, em estado meio hibernado, em toca de mantas e chás, só assim, a ver passar os dias? E as pessoas que vivem sempre mais ou menos no inverno, estão anestesiadas a vida toda? Há aqui alguma coisa errada, gastar dias em nada só porque são feios e não se gosta deles.
Os miúdos, quando são pequenos, tanto lhes faz. Está a chover, é fixe, saltam nas poças de água, está frio e é correr atrás deles, veste o casaco! É indiferente, trazem dentro um verão só deles.
Se calhar é isso que a rapariga que canta aos berros dentro do carro, de algum modo, também quer. Trazer dentro um verão só dela, todos os dias.


Janeiro dois

A fotografia do dia não a tirei, claro, ia a guiar. Chuva torrencial e uma rotunda cheia de erva e plantas verdes. No meio das plantas, uma mais estranha e eu a passar e a pensar o que é aquilo? E depois, já na fotografia mental, é um tipo vestido de impermeável verde, com capuz, a jardinar. Uma planta com uma cara ensopada. Aposto que estava de trombas, mas não consegui ver bem.
Conta que não sou simpática. Só consta, claro, que eu sou um encanto de pessoa, nem sei porque é que não pareço. E então abri sorrisos hoje e levei com uma data de caras fechadas, uns vagos esgares e uns resmungos que tanto podiam ser bons dias como deves ser uma doida varrida a sorrir à parva. Valentemente, prossegui o esforço, com vontade de os mandar todos à fava e fiz a figura da tola que se ri de nada. Ainda é só dia dois, daqui a uns dias devo voltar ao normal e o caminho para o inferno perde meia dúzia de lajes. Também não fará grande diferença, deve haver carradas delas ainda amontoadas à espera de trolhas suficientes. Se eu mandasse nas almas penadas, punha-as todas a pavimentar o caminho no princípio do ano, parece-me mais útil que alombar com pedras por encostas acima.
Depois dei um grande abraço à minha cabeleireira. Ela precisava mesmo (eu se calhar também) e nem sou de grandes abraços. E esse não foi nem por nem para ser simpática. Sou uma besta que, às vezes, se comove. Calha.


Janeiro um

Não há resoluções de ano novo, nunca resultam. Mas há sempre intenções. E a minha é ser mais feliz. Não que não seja, mas distraio-me. Quando tenho coisas que me pesam, distraio-me e não aprecio as coisas boas como merecem. Dou por elas, sei que são momentos bons mas não me foco; tenho a cabeça noutro lado qualquer, um bocadinho mais escuro e não vejo bem. E sei que é estúpido, estou a olhar para o momento, reconheço-o como um dos que quero e vou guardar e não me toca. Acho que construímos uma parede transparente de distanciamento entre nós e aquilo que nos está a moer o juízo naquele momento e a parede não desaparece quando olhamos para o resto. É um dilema tramado: para apreciar os momentos felizes temos que levar com o embate sem protecção dos menos bons, que não há botões de liga e desliga, consoante dá mais jeito.
A minha intenção é ser mais feliz mas se calhar vou ter que deixar de pairar sobre o que me dói. Não é nada simples.